O devir do porvir
Cauê Alves
maio 2011
A presença do ausente
Cauê Alves
março 2009
Quatro, três, dois, um...
Cauê Alves
junho 2006
De chuva, quadros e baratas douradas
Fernando Oliva
março 2004
Assento/abismo: a alternância entre céu e chão na obra de Marina Saleme
Juliana Monachesi
janeiro 2004
Ao folhear o livro de Marina Saleme, que reúne parte
significativa de mais de vinte anos de trabalho, temos
a oportunidade de construir uma espécie de narrativa
aberta de sua obra. É possível compreender seu percurso
a partir do encadeamento sincrônico de imagens e
acontecimentos que revelam um fluxo ora contínuo,
ora nem tanto, em sua pintura. A trajetória de Marina
Saleme impressiona não apenas pela coerência, por
sua identidade interna, mas pelo fato de ao mesmo
tempo em que seus mais recentes trabalhos podem ser
vistos como desdobramentos dos primeiros, eles são
também independentes, livres e claramente distintos dos
anteriores.
Ao longo de seu percurso, a artista foi produzindo
pinturas que se diferenciam uma das outras, mas que não
se opõem porque carregam em seu interior uma semente,
uma potência geradora do porvir. No final dos anos de
1980, por exemplo, surgem em suas telas elementos
fortes, uma espécie de anteparo, estruturas que barram
o olhar como em Sem título, 1989, díptico. Mais tarde os
anteparos terminam nos pés das pessoas e funcionam
como bancos. Essas estruturas permanecem em pinturas
como Céu de almas, 1995 (à direita, primeira imagem),
e podem ser reencontradas como guarda-corpos,
parapeito entre o chão e o abismo, em telas como Praça,
2008 (segunda imagem). Em duas das imagens de
Contadores (da série Portas), de 2006, elas já podiam ser
redescobertas.
Não se trata de um projeto deliberado da artista de
manter alguns elementos para que haja unidade entre
trabalhos de diferentes períodos, mas de uma percepção
posterior que apenas se faz num olhar retrospectivo, que
não é o mesmo de quem está diante da tela trabalhando.
Em vez de a artista recuperar fios soltos ao longo de
sua trajetória, são certos elementos que indiretamente a
perseguem e a surpreendem por sua recorrência.
Algo semelhante ocorre com os nódulos úmidos ou
os caroços presentes em desenhos como O passeio,
1995, e Deitado, 1997 (próxima página), que viraram
poças, cavidades e depois nuvens carregadas de onde
escorre um líquido negro. A diferença está apenas
no fato de que ora elas são elementos que contêm o
líquido, covas, ou seja, formas em que há uma força que
privilegia a concentração, ora são feridas que vazam,
transbordam, escorrem e fazem que o líquido se disperse
ou se perca no mar, como na série Portantes, 2003. Aos
poucos, o elemento líquido, ou as formas mais densas
e concentradas no trabalho de Marina Saleme vão se
tornando pesadas a ponto de não poderem mais ser
contidas. É desse movimento que parece brotar a noção
recorrente de chuva que está em Gotas, 1999, ou de um
céu carregado, prestes a desabar, como em Pancadas, 2001.
Mas a chuva, que é também lágrima ou sangue,
é derivada de uma grade que estrutura a pintura, uma
rasura que resultou num esfacelamento da própria
tela. O gesto de riscar, que surge como anulação, aos
poucos se tornou elemento orgânico e vivo. Em algumas
telas, como Fortuna, 2009, e Noite, 2009 (à direita), mas
também em muitos dos trabalhos posteriores, a nuvem
ou a chuva, que eram figuras, tornaram-se fundo. Na
verdade, a pintura de Marina Saleme parece desfazer a
regra de que para toda figura percebida há um fundo. O
espaço intermediário de colorido intenso entre figuras é o
protagonista de vários trabalhos. É a luminosidade da cor
que dava estrutura às telas e que mais do que preencher
espaços sustentava toda a composição. Entretanto,
nos últimos trabalhos, como Doce noite, 2010 (próxima
página), o que sustenta os elementos pesados, as nuvens
carregadas, são linhas curvas entrelaçadas.
Nas pinturas recentes da artista, linhas sinuosas surgem
do encontro de cores e formas. Uma pincelada se enlaça
na outra e na seguinte. E entre elas surgem massas de
cor que estavam no fundo ou que talvez tenham vindo
mais tarde. Em vez de estruturas retas compostas de
losangos, como em Feridas, 2001, Alice, 2001, ou Goela,
2001, realizada no Centro Universitário Maria Antonia, as
telas atuais são cheias de arabescos. Entre um ponto e
outro há mais desvios, curvas e ornamentos. O desenho
surge da trama do fundo, do encontro entre cores, do
cheio e do vazado. Ele adquire autonomia como se se
libertasse de sua origem, mesmo que às vezes a linha
retorne ao início, ao fundo primordial, e se apague.
O apagamento na obra de Marina Saleme é também uma
constante que se mantém e se modifica ao longo dos
últimos vinte e tantos anos. Ele indica que há algo entre
o que foi apagado e o novo gesto, é índice que torna
presente algo que não está mais aí. O que importa não é
tanto a função literal de corrigir, mas o sentido do refazer,
de um retorno ao estágio anterior que o tempo linear e
objetivo impossibilitaria, uma vez que a volta já pressupõe
a consciência que antes não se tinha.
Como a princípio não há erro em pintura, uma vez que
não existe gramática predefinida, não é o caso de apagar
um elemento equivocado, mas de construir pela negação,
de revelar pelo que se retira. Especialmente no caso de
Marina Saleme, o processo da pintura se dá a partir da
sobreposição de camadas. É aí que figuras surgem, são
cobertas e repintadas. Assim, o espaço vai se adensando
conforme a matéria da tinta vai sendo acrescentada.
A série Auto retratos, 2009, de Marina Saleme, nos ajuda
a elucidar a noção de apagamento. Quando a artista
pinta uma mancha sobre sua boca ou retira a definição
das linhas de sua face, ela não está apenas negando sua
silhueta ou se amordaçando, mas sim revelando o
próprio silêncio de onde se origina toda a fala possível.
No apagamento está a ausência que se manifesta e que
faz questão de ser percebida, o invisível que sustenta a
visibilidade.
Apagar em seu trabalho é um constante recomeço, uma
procura incessante. Tudo se passa como se as soluções
já estivessem no interior da pintura, no fundo da tela, e
fossem parcialmente recuperadas. A profundidade da
pintura é tecida pelo avesso, num movimento do fundo
para o primeiro plano e vice-versa. Mas nesse processo,
ao contrário do mecanismo de uma tela de computador,
nem todas as “imperfeições” são apagadas. A memória
do fazer da pintura é presente depois que o trabalho é
dado por acabado.
Na linguagem falada, mesmo que o orador corrija uma
frase ou um termo mal pronunciado, não há como voltar
atrás. Não dá para retornar no tempo e refazer o discurso.
Na pintura o processo é semelhante, mas como o público
não acompanha de perto sua elaboração o que se vê é
um conjunto de camadas simultâneas, desde as opacas
até as mais transparentes. Diante da pintura de Marina
Saleme não sabemos ao certo o que veio antes ou depois.
O tempo de sua pintura se apresenta de modo não linear.
Trata-se de uma profusão de tempos concomitantes,
como se passado, presente e futuro se reunissem em um
mesmo trabalho. A pintura aparece como um conjunto
de gestos sincrônicos que não se mostram a partir de um
processo evolutivo. Todas as pinceladas coincidem no
campo da tela, mesmo que estejam submersas e cobertas
por outras e que retomem pinturas passadas e as que
ainda virão. É um presente que carrega parte do processo
que o originou e um pouquinho do futuro, o que ainda irá
acontecer em sua obra.
Na monumental tela Por trás disso tudo, 2009 (à direita),
uma espécie de síntese em que reaparece muito do
vocabulário da artista (nuvens/poças se fundem com
arabescos, chuvas e figuras apagadas), é evidente a
percepção de que as figuras humanas estão ali diante de
nós como fantasmas. Isso não quer dizer que as vemos
apenas como destituídas de realidade, como imaginação,
mas também como um fenômeno sensível e concreto. As
figuras estão disfarçadas, mas estão ali, como sombras, a
ponto de o intervalo entre elas ser tão ou mais importante
que elas mesmas. São presentificações de ausências,
figuras que ainda existirão, que continuam existindo, que
existiram.
A ordenação do tempo no trabalho de Marina Saleme,
quando sugere alguma cronologia, tende a uma sucessão
regressiva. Geralmente usada quando acontecimentos
muito aguardados estão prestes a ocorrer, como a virada do
ano, a proximidade de um evento especial, a
expectativa do fim, a contagem regressiva tende sempre
ao elemento inicial de uma série, ao zero, ou seja, a
representação da ausência. A série Contadores, 2006,
alude à não acumulação que esse retorno a estágios
já percorridos implica. Mais do que a constatação da
falta de permanência das coisas, há nesse trabalho a
concepção sobre a ciclicidade inexorável do tempo.
Neles, épocas distintas podem ser não apenas
conectadas, mas simultâneas.
A recorrência de certas formas nas pinturas e fotografias
de Marina Saleme sugere um longo processo de
maturação que inclui avanços, recuos e um contínuo
voltar-se sobre si mesmo. E esse retorno ao ponto
inicial, a volta à estaca zero, nos ajuda a compreender
o movimento de sua reflexão. Sua obra é povoada de
vultos, lápides e vazios. Além do elemento vazado, é
possível perceber certas estruturas que bloqueiam a visão
e marcam o fim de um trajeto, ou talvez o início.
A fotografia no percurso de Marina Saleme surgiu como
um desdobramento de seu raciocínio pictórico e temporal
e, portanto, é menos um fim do que um meio. As fotos,
mais do que o poder de multiplicação da imagem, fazem
reverberar a noção de tempo dos trabalhos, seja como
espelhamento, como em Portantes, 2003 (à direita), seja
como regressão ao zero, em Contadores, 2006. Suas
pinturas têm aparência mais fluida do que a das fotos
e possuem dezenas de camadas de tinta. Nelas, o feito
é desfeito e, várias vezes, refeito até se chegar a um
resultado que não poderia ter sido projetado, porque ele
surge durante o processo de trabalho. É como se houvesse
a possibilidade de processos serem revertidos ao estado
anterior, mas nesse trajeto algo diferente acontece.
As telas se beneficiam da sobreposição e do adensamento
de matéria, exigindo um tempo mais lento, ao passo que
as séries de fotografias – talvez com exceções como a da
grande foto que é antes de tudo pintura (próxima página)
– possuem um aspecto mais instantâneo. O que ocorre é
que a artista reencontra no mundo certas estruturas que
foram construídas em sua pintura, retornando à origem
de sua pesquisa, ao ponto de partida. A reversibilidade
e a possibilidade de espelhamento que enriquecem seu
espaço pictórico. Ora mais etérea, ora espessa, sua
produção possui uma ambiguidade que não se contenta
com definições prévias.
Sem jamais abdicar da figura, o trabalho de Marina Saleme
se coloca aquém da esquemática tradição que opera a
partir da oposição entre figuração e abstração, como se a
arte abstrata fosse livre da representação que a figuração
nunca conseguiria abandonar. Representar uma imagem
que corresponda a algo que esteja fora do alcance de nossa
vista se confunde, aqui, com apresentação: o modo como o
trabalho da artista se deixa conhecer sem que seja preciso
recorrer a algo exterior a ele. Essas obras são aquilo que
vemos, sua própria materialidade, mas não deixam de ser,
ao mesmo tempo, aquilo que poderia estar nas obras que
ainda virão ou o que está entre cada uma delas.
A abstração está tradicionalmente associada ao
isolamento de um objeto, a retirá-lo da relação com
outros elementos, fazendo que ele perca sua concretude.
Por isso a abstração é um alheamento, um voltar-se
para si mesmo na medida em que se retira a ênfase
naquilo que está no entorno do objeto. Já figurar é traçar
contorno, demonstrar, dar um sentido preciso para as
formas, tornando-as reconhecíveis ou ao menos um
análogo da natureza ou da cultura. O que Marina Saleme
faz não pode rigorosamente ser associado apenas a
abstrair ou a figurar, mas a algo entre um e outro. Há uma
indeterminação em sua obra que impede classificações
estanques. Ao mesmo tempo que há um retorno sobre
si mesmo, certa reflexividade em sua obra, um elemento
estrutural isolado, como o já mencionado aparador, pode
ser reconhecível como figura, como banco ou guardacorpo
em trabalhos posteriores. O mesmo se dá em
relação aos intervalos entre as figuras humanas, que são
como figurações abstraídas. Aí está um dos enigmas de
sua trajetória.
E é do que está entre que sua pintura se alimenta, entre
o significante e o significado, entre a figura apagada e
seu retorno, entre o explícito e o implícito. A artista torna
visível o que pode haver entre o necessário, o que não
poderia ser diferente, e o contingente, o indeterminado,
que é pura liberdade, é porvir.
A narrativa que surge da trajetória de Marina Saleme
não é uma narrativa com começo, meio e fim, com
um desenrolar previsível; ao contrário, é a de uma
historicidade interna e própria de seu trabalho. Cada
obra abre caminho para a próxima porque retoma algo
do anterior, algo que está literalmente ausente dela, que
é percebido como falta e que será completado pelo novo
trabalho. E o caminho para o próximo surge também do
excesso de sentido de cada pintura, que é justamente a
possibilidade de ela ser vista sob um ângulo não previsto,
ou seja, como pura abertura.
Cauê Alves é professor do curso “Arte: história, crítica
e curadoria”, da PUC-SP e curador adjunto da 8ª
Bienal do Mercosul. Desde 2006 é curador do Clube de
Gravura do MAM-SP. Realizou, entre outras curadorias,
a mostra Quase líquido, Itaú Cultural (2008), e Mira
Schendel: Avesso do avesso (2010), no Instituto de Arte
Contemporânea.